Marceline
Ravenhelm nasceu na famosa cidade de Scarborough, localizada na
província de Rivenspire e conhecida por sua enorme feira, onde se
dizia ser capaz de encontrar de tudo. Seus pais, Peter e Elizabeth
Ravenhelm, eram pessoas simples e possuíam uma fazenda nos arredores
da cidade. Desde pequena Marceline aprendeu a trabalhar na fazenda e
desenvolveu um talento nato para a cozinha, fazendo deliciosas
tortas, pães e bolos, que vendia na cidade para ajudar sua família.
Mas além do talento culinário, ela descobriu ter uma grande
afinidade com a magia. Diferente dos magos, que frequentam escolas e
aprendem com livros e mentores, Marceline foi aprendendo a lidar com
a magia de forma autodidata, o que a fez manter em segredo seu
talento, muito embora seus pais já percebessem que havia algo
estranho com a filha, e que sua presença influenciava no ambiente ao
seu redor. Muitas vezes, velas eram acesas do nada, objetos se moviam
e luzes dançavam pela casa, mas isso não ocorria quando a jovem
garota não estava em casa, o que era suspeito.
Apesar
de ser reservada por conta do poder mágico – que ela ainda não
sabia controlar –, Marceline sabia lidar com pessoas e era
considerada uma jovem simpática, devido a seu trabalho de
comerciante na cidade. E foi na Feira de Scarborough que ela conheceu
o amor de sua vida, Dohko, um bardo extremamente talentoso que
aproveitava de sua conexão com a música para sobreviver, vivendo
assim de taverna em taverna, até um dia encontrar Marceline, que com
pena do jovem moço que parecia estar com fome, ofereceu um de seus
pães. Como a fazenda estava precisando de mais pessoas para
trabalharem lá, Marceline levou Dohko até seus pais, que ofereceram
um lugar para ele viver, em troca de seu trabalho. O bardo então
aceitou, e quando não estava trabalhando com sua música, ajudava
com pequenos serviços na fazenda.
Apaixonados,
Dohko e Marceline desenvolveram uma profunda amizade que foi se
fortalecendo com o tempo. Apesar de ele ser onze anos mais velho que
ela, eles se davam muito bem e sabiam dos mais profundos segredos um
do outro. Dohko era um licantropo, que fugia em toda noite de lua
cheia, pois se transformava em um enorme lobo. Apenas Marceline sabia
disso, assim como somente ele sabia que ela tinha um talento pra
magia e que estava aprendendo a controlá-lo, seguindo a doutrina da
deusa Wee Jas, que prometia que o sucesso vinha do estudo da magia.
Certo
dia, durante o outono, já em sua idade adulta, Marceline saiu para a
cidade para vender suas tortas. Despediu-se dos pais como em qualquer
outro dia comum. Sua mãe estava esperando um filho. A fazenda havia
crescido e a família Ravenhelm já começava a ser conhecida, o que
despertava a atenção dos nobres cidadãos da cidade. Neste dia
Dohko ficaria em casa, pois era noite de lua cheia. A feira estava
cheia e aquele dia foi ótimo para Marceline, que conseguiu vender
todas as tortas e pães que havia feito. Ao final do dia, onde já
anoitecia, a jovem feiticeira estava exausta e parou em uma taverna
para se refrescar. Quando estava chegando em casa, a lua cheia tomava
um grande espaço no céu. Ao olhar para a lua, pensou em Dohko, e
segurou seu pingente em formato de coração que havia ganhado do
mesmo com força. Um vento impetuoso quase a derrubou e a sensação
de perigo a fez apressar os passos. Dohko, isolado na floresta
próxima a fazenda, teve a mesma sensação e decidiu ir até os pais
de Marceline para ver se estava tudo bem.
Ao
chegar na fazenda, Dohko avistou o fogo alastrando as plantações e
ouviu gritos de dentro da casa. Um grupo de bandidos havia atacado a
fazenda e estavam saqueando o que podiam, enquanto matavam qualquer
um em seu caminho. Quando avistou o corpo dos trabalhadores pelo
campo, uma onda de fúria percorreu Dohko, transformando-o em uma
criatura horrenda de garras e dentes enormes. Em meio aos gritos, um
uivo seguido de um rugido nervoso. Ele precisava proteger a família
de Marceline. Mas quando entrou na casa, lançando os bandidos que o
atacavam para longe, viu que era tarde demais. Elizabeth e Peter
estavam mortos, dilacerados pelas lâminas do chefe do grupo de
mercenários. O bando, por mais assustado que estivesse, ainda eram
muitos, e cegados pelo medo e ganância, partiram para cima Dohko,
atacando-o. O licantropo ainda conseguiu matar alguns dos homens que
atiravam flechas e apontavam espadas em sua direção, entretanto,
uma flecha acertou seu coração, matando-o por fim.
Marceline
chegou na fazenda e encontrou apenas morte e destruição. Sua casa
pegava fogo, assim como todos os materiais ao redor. Tudo estava
revirado, todos estavam mortos, e nesse momento ela também desejou
estar morta: a visão de sua família sem vida a despedaçou, mas foi
ao ver o corpo de Dohko coberto de sangue e já inanimado que a fez
cair em prantos. Ela agarrou o lobo, aconchegando-se em seu pêlo
branco. Este foi o último dia em que Marceline foi capaz de amar.
Ela recolheu dentre o que restou suficiente para uma viagem, e ateou
fogo no que ainda não havia queimado. Toda e qualquer lembrança
ficaria para trás, assim como qualquer sentimento.
Desde
então, a feiticeira viaja entre reinos a procura de aventuras que
possam aprimorar seus talentos e usa de seu carisma obtido com o
trabalho para conseguir o que quer. Quando a lábia e a trapaça não
funcionam, ela usa da magia para torturar e matar qualquer um que
ouse ficar em seu caminho. Desafortunados são aqueles que se
enfeitiçam por sua beleza magnífica, pois ela é incapaz de sentir
qualquer coisa por alguém, e é capaz de mentir e fingir para
atingir seus objetivos. Dizem que ela se tornou no monstro que tirou
tudo de sua vida, mas Marceline já passou há muito tempo de ser um
monstro. Cada passo que dá ao lado do Mal a torna uma com a
escuridão.